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Bom para Criança

Category: Por trás das telas

Por trás das telas: Entrevista com Beth Carmona

O que observar na hora de escolher conteúdos digitais para o seu filho? “Tudo é uma questão de equilíbrio. Essas ferramentas podem ajudar e podem desenvolver até habilidades cognitivas. Retirar essas possibilidades das crianças, ou afastar delas esses devices por medo é uma bobagem. Porque por uma via ou outra as crianças estão nesse mundo, e a sociedade que a gente vive é essa.”

Crédito: Gal Oppido/ Reprodução Internet

Crédito: Gal Oppido/ Reprodução Internet

Quando assistimos aos programas de televisão infantil, muitas vezes não paramos para pensar nas pessoas envolvidas em sua criação e produção. No Brasil, uma das maiores especialistas nesta área é Beth Carmona, que começou sua carreira na década de 1990 como Diretora de Programação da TV Cultura e envolvida na produção de sucessos como “Rá-tim-bum”, “Castelo Rá-tim-bum” e “Confissões de Adolescente”.

Beth Carmona também trabalhou na Discovery Latin America, na The Walt Disney Company Brasil, como presidente da TVE RJ-Brasil por quase cinco anos, além de prestar consultoria para canais como Gloob e Discovery Kids. Uma vasta experiência que lhe deu bagagem para alçar voos maiores e lançar o ComKids, uma plataforma digital que propõem discutir a produção de conteúdos digitais, interativos e audiovisuais de qualidade para crianças e adolescentes, com foco no Brasil e na América Latina. Entre as atividades de maior destaque do ComKids, está o Festival Prix Jeunesse Iberoamericano, realizado desde 2009 em colaboração com a edição internacional que acontece na Alemanha.

Veja mais em www.comkids.com.br

Já há alguns anos acompanho o trabalho do ComKids pela internet, e tive o prazer de conversar com Beth Carmona durante o Rio Content Market, onde ela mediou várias palestras sobre produção de conteúdo digital para crianças e adolescentes, entre novos projetos de séries de TV, aplicativos e games. Divido com vocês a seguir um pouco desta conversa.

Bom para criança: O que os pais devem observar na hora de escolher conteúdos digitais para mostrar para o seu filho?

Beth Carmona: É engraçado, pois eu sinto que ainda existe uma barreira muito grande, e uma dúvida dos pais em relação a que tipo de conteúdo eles vão assistir na internet, ou opiniões como “Eu não deixo o meu filho assistir vídeos na internet” assim como existia há alguns anos a postura “Eu não deixo o meu filho assistir televisão” ou “Eu não deixo meu filho jogar vídeo game.”

Enfim, eu acho que tudo é uma questão de equilíbrio. Essas ferramentas podem ajudar e podem desenvolver até habilidades cognitivas. Retirar essas possibilidades das crianças, ou afastar delas esses devices por medo é uma bobagem. Porque por uma via ou outra as crianças estão nesse mundo, e a sociedade que a gente vive é essa.

Informação é tudo. Os pais precisam se informar, conversar, trocar ideias. E hoje é tão bom a gente ter acesso ao conhecimento e à informação de uma maneira tão imediata. Todo mundo tem. E as crianças já nascem com essa habilidade.

O que a gente precisa ensinar para os nossos filhos é saber o que escolher, da mesma forma como quando vamos a uma feira e precisamos separar o que é bom do que é ruim. O que é qualidade? Onde encontro qualidade? Essas são as perguntas que os pais devem se fazer, e são exercícios que fazemos muito dentro do ComKids.

Bom para criança: Como surgiu o ComKids?

Beth Carmona: O ComKids nasceu de uma iniciativa da ONG Mídia Ativa, fundada por mim, num momento em que tive uma intensa experiência com produção de séries de televisão na TV Cultura, nos anos 1990. Eu acredito que a gente fez uma história linda lá dentro, produzindo, programando e descobrindo as crianças na televisão. Numa época em que a TV Aberta relegava as produções infantis para o horário da manhã, sem entender que criança estava por trás e que existia inteligência no mundo infantil.

O Mídia Ativa foi inspirado em algumas experiências internacionais que eu tive a sorte de participar, algumas fundações e grupos profissionais que trabalham com criança, e essa é uma comunidade muito apaixonada que se encontra em vários lugares e vai trocando experiências, evoluindo, discutindo linguagens.

Quando o ComKids nasceu como selo, o objetivo não era só falar de televisão, mas falar de uma maneira geral o que é produzir conteúdo infantil nas mais diversas plataformas, com que tipo de preocupação, com que tipo de realidade, com que tipo de cuidado, ética responsabilidade. O ComKids está sempre discutindo entretenimento e educação, mas também falando de criatividade e de linguagem.

Bom para criança: Quais são as principais atividades promovidas pelo ComKids?

Beth Carmona: O ambiente da plataforma ComKids acolhe produtores, criadores, educadores, pessoas que se interessam por este assunto e que de alguma forma querem entrar em contato, trocar experiências e saber o que está acontecendo. Tempos um caráter informativo, mas também temos um caráter de formação pois realizamos seminários, workshops e publicações que são disponibilizadas no site gratuitamente.

A nossa comunidade está focada principalmente naqueles que produzem conteúdo para crianças em português e em espanhol, pois acreditamos que a nossa cultura precisa estar melhor representada, e a gente acha que a América Latina tem um jeito de educar, de ver e de criar que pode contribuir e muito para um debate global sobre o assunto. O selo ComKids foi criado em 2009 e estamos indo para o sétimo festival ComKids Prix Jeunesse.

por Silvia Dalben

Entrevista com Paula Taborda dos Guaranys

O objetivo do Gloob é oferecer um conteúdo que divirta e inspire as crianças. Transmitimos valores positivos de forma lúdica, evitando a narrativa didática.

Paula TabordaPaula Taborda dos Guaranys é gerente de conteúdo e programação do canal Gloob, lançado pela Globosat em junho de 2012 e que em pouco mais de três anos já conquistou a audiência infantil e ocupa o 8º lugar na audiência da TV por assinatura, a frente de canais como a Globo News. No canal, Paula é a responsável pela estratégia de programação e pelo desenvolvimento de produções originais, ocupando esta posição desde o início do Gloob.

Nesta entrevista, realizada durante o TelasFórum em novembro de 2015 em São Paulo, Paula Taborda fala um pouco sobre como as crianças de hoje consomem mídia, como o Gloob se insere neste contexto e dá dicas de duas séries que são campeãs de audiência no canal – o D.P.A. e o Buuu. Confira!!

Veja o post sobre a série do Gloob “Buuu – Um chamado para a aventura”

BOM PARA CRIANÇA: Como a nova geração consome mídia?

Paula Taborda: Hoje, o conteúdo tem que estar disponível em todas as plataformas. Quando pensamos um conteúdo para o Gloob, não podemos mais pensar só para televisão. O conteúdo precisa estar disponível em todos os lugares, porque a criança não está mais ligada em um só lugar como antes. Na época que a gente cresceu, tínhamos como referência um grande ator, uma estrela de um canal. A criança hoje consegue focar em diferentes atividades e exige mais do conteúdo além da televisão. Desde pequenininhos, elas têm contato com o tablet, o smartphone, então, elas estão em todas as telas e em todos os lugares. E quando planejamos um conteúdo, temos que pensar em toda essa gama de possibilidades. Onde a criança vai estar? Hoje em dia as crianças automaticamente vão para a televisão e tocam na tela, porque elas acreditam que o consumo se dá dessa forma, é uma lógica completamente diferente da nossa.

Trabalhar no Gloob é um aprendizado contínuo. Aprendemos diariamente, desde o lançamento até agora, a entender esse consumo que ainda é fortíssimo na plataforma linear que é o nosso core business. Mas já estamos em todas as plataformas, com um número grande de visualizações em VOD. O Gloob está em todos os lugares. E as crianças estão acompanhando junto, experimentando, vivenciando o canal em cada um desses momentos e em cada uma dessas plataformas.

BOM PARA CRIANÇA: Que tipo de conteúdo o Gloob oferece para as crianças?

Paula Taborda: O nosso objetivo é oferecer um conteúdo que divirta e inspire as crianças. Transmitimos valores positivos de forma lúdica, evitando a narrativa didática. Falamos de diversos assuntos interessantes como Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Monteiro Lobato. E tudo isso salpicado ao longo dos programas de uma forma lúdica, para que a criança não perceba: “Oi, estou aprendendo, estão querendo me ensinar alguma coisa!”.

Quando o conteúdo passa a ser didático, muitas vezes a criança se afasta, rejeita o que é apresentado, e não é isso que queremos. Desejamos o contrário, engajar a criança. De que forma podemos abraçar o conteúdo, engajar, criar um personagem que seja apaixonante, fazer com que a criança se identifique com a nossa criação? Por exemplo, tem um personagem em Gaby Estrella que é divertido, comilão, que gosta de brincar e não tem medo de se sujar… Este é o retrato de uma criança real. Tentamos conceituar isso quando desenvolvemos um programa, criando esses personagens. É isso que buscamos. Uma hora ou outra não funciona, mas errar e se desenvolver faz parte do processo de aprendizagem.

BOM PARA CRIANÇA: Quais são os conteúdos campeões no Gloob?

Paula Taborda: D.P.A. – Detetives do Prédio Azul – São três crianças que moram em um prédio. O Tom mora com sua mãe, a Mila com o seu pai e o Capim é o filho do porteiro. E tem uma síndica, Dona Leocádia que se acha dona do prédio e sempre coloca culpa nas crianças para tudo o que está acontecendo.

As crianças têm um clubinho secreto, que ninguém sabe onde é, e ali eles tentam desvendar os mistérios do prédio. A série é uma febre. Já tem 192 episódios produzidos pela Conspiração, uma produção 100% nacional. Foi o primeiro conteúdo exibido pelo canal em junho de 2012, e continua no ar até hoje.

A outra série é o Buuu, que estreou em março de 2015. São quatro crianças: a Isadora, a Chica, o Casca e o Carlinhos, e eles vão para o Butantan e descobrem uma pirâmide subterrânea onde vivem milhões de aventuras para tentar descobrir o soro da imunidade. E aí é uma aventura contra o tempo, eles encontram monstros gigantescos, uma zumbi vegetariana. Tem 3D, tem 2D, tem um pouco de tudo. E as crianças adoram.

por Silvia Dalben

Entrevista com Célia Catunda

É muito importante passar conteúdos positivos para as crianças através do entretenimento

Esta semana, o post vai ser um pouco diferente, e ao invés de dicas, vamos inaugurar uma nova seção no blog,“Por trás das telas”, com entrevistas com profissionais que trabalham na produção de conteúdos digitais para crianças.

A primeira entrevista é com a Célia Catunda, diretora das séries de animação Peixonauta, O Show da Luna, Gemini 8 entre outras, uma das sócias da TV PinGuim junto com Kiko Mistrorigo. É bom reforçar que o Peixonauta foi a primeira série de animação de concepção artística e autoria brasileira, que estreou em 2009 no Discovery Kids e na TV Brasil e passa atualmente em vários países do mundo.

Veja o post sobre a série O Show da Luna!

Conversamos com a Célia durante o TelasFórum, um evento sobre o mercado de produção de conteúdos para televisão que aconteceu entre os dias 9 e 10 de novembro em São Paulo, realizado pela SPCine e pela Converge Comunicações.

Bom para criança: Como é o trabalho de produção das séries de animação da TV PinGuim?

Célia Catunda: A criação das séries é minha e do Kiko, e a gente trabalha junto com os roteiristas desde as sinopses. O DNA da produtora sempre foi trabalhar com conteúdo positivo que colabore para o desenvolvimento da criança. Eu não consigo fazer outra coisa.

A gente começou fazendo Rita, uma série de interprogramas para a TV Cultura, que já mostrava um comportamento positivo, sem colocar o dedo na cara da criança e ditar ordens do tipo faça assim, ou faça assado. A gente mostrava uma criança saudável. Depois a gente fez o De onde vem, que falava de onde vinham as coisas, o Peixonauta que fala sobre sustentabilidade, e O Show da Luna que é sobre ciências.

Eu acredito que é muito importante você passar conteúdos positivos para as crianças através do entretenimento. Eu já achava isso e depois que eu tive filhos, eu percebi ainda mais como isso era importante. Porque a criança é uma esponja, ela absorve muito tudo aquilo que vê na televisão, no teatro e no cinema. Muitas vezes, ela absorve esses conteúdos até mais do que uma aula na escola. Porque estas histórias tocam o lado afetivo delas, elas estão se divertindo, curtindo os personagens. Ela adora a Luna, adora o Peixonauta, e quer ouvir o que eles têm para falar. Então eu não posso fazer um personagem falar alguma coisa idiota, principalmente para uma criança pequena, que está desprotegida.

Bom para criança: E neste contexto, qual o papel dos pais. Você acha que eles têm que controlar a exposição das crianças a esse tipo de conteúdo?

Célia Catunda: Eu acho que tem que controlar a exposição sim, e eu sei que é difícil, pois hoje em dia a criança está o tempo todo vendo alguma tela, seja a televisão, o iPad o telefone. Então, eu acho que os pais tem que fazer um esforço muito grande para restringir o tempo que essas crianças estão olhando para alguma tela, para ela também olhar para o mundo real.

Uma opção é determinar horários. E quando a criança estiver assistindo alguma coisa, sempre que possível ter algum adulto que possa pontuar o que está passando. Porque tem propagandas, tem um monte de coisas que incentivam demais o consumo. É importante ter um adulto, e um adulto consciente, que fale: “Olha, isso não é bem assim.” É importante também que o adulto selecione o que esta criança vai assistir, e se ela escolher alguma coisa que você não concorda ou não gosta, você pode até deixá-la assistir desde que pontue que não acha aquele programa legal, que não concorda com o jeito que aquele irmão trata aquela irmã, ou o jeito que um personagem fala com o outro.

Tem muitos desenhos que um personagem chama o outro de idiota, e eu ficava indignada quando meus filhos eram pequenos. Porque eles repetiam exatamente o que ouviam. Mas também tem muita coisa boa. Então, os pais tem que tem que falar para os seus filhos. Acho que as vezes os pais subestimam muito o poder que eles têm, se sentem impotentes e acham que os filhos só vão fazer o que querem.

Bom para criança: E como vocês lidam com os novos conteúdos transmídia, as redes sociais e as possibilidades de levar os personagens das séries de animação para aplicativos e outros conteúdos interativos?

Célia Catunda: Além das séries para a televisão, a gente faz também aplicativos, livros, teatro. Mas o que eu tento fazer, tanto no Peixonauta quanto na Luna, na hora que o personagem tem que fazer uma pesquisa, eles usam o livro. Eles não vão pesquisar uma coisa no Google ou no computador. Eu sempre falo para os roteiristas. Se vai pesquisar alguma coisa, pesquisa no livro. Porque a gente mostra para a criança que existem outros lugares para ela pesquisar.

Por exemplo, no aplicativo que a gente criou para a Luna, em cada episódio tem sempre alguma atividade para a criança fazer fora da tela, que é assim: desliga esse aplicativo e vai lá pegar a tesoura, o papel, o lápis de cor. A gente sempre procura estimular coisas diferentes, e o legal é que a animação é 360º mesmo. Você não vai estar com a criança só quando ela estiver ligada na televisão ou na tela do celular. Você também lança um livro, uma revista de atividades, teatro, música, muitas outras formas da criança estar com este personagem e ao mesmo tempo vivendo e fazendo outras coisas.

por Silvia Dalben